Google+ Badge

sábado, 6 de fevereiro de 2010


Fortaleza

Lenta e deliberadamente me introduzo na fortaleza.



Sonolentos, os guardas nem parecem notar este vulto que passa por entre as grades, e se encaminha para o mesmo lugar onde outrora estivera.


Estou aqui novamente.



Vi o céu estrelado fulgurando entre as árvores, na imensidão da planície.
Mas tudo o que percebia eram os gritos daqueles que deixei, encadeados, suplicantes, desfigurados.
Aqueles que ficaram para traz.







Lenta e deliberadamente me introduzo na fortaleza após minha fuga.
Sonolentos, os guardas não não percebem que retorno.







Vi belas e lindas montanhas, o ar limpo e fresco da manhã.


Tomei o leite oferecido por uma camponesa.


Mas o que ficava em meu coração era o odor fétido daquela pocilga, do miasma dos vários encarcerados, do restolho imundo jogado por sentinelas cruéis para satisfazer apenas seu prazer em nos manter vivos na agonia.


Olhei então para trás, e percebi que tudo aquilo que poderia trazer um sentido para meus camaradas só o meu testemunho poderia dar.
Retornando a prisão eles poderiam se alegrar com os relatos dos campos,
das imensas florestas que vi, da delicadeza das camponesas
e de como sussurravam sobre o fim próximo da tirania.


Tomei o rumo daquele lugar de tanto horror.
Esgueirei-me pelos corredores malditos até tomar meu lugar de outrora.

Sonolentos, os guardas nem notaram.


Agora estou aqui novamente.
A certeza das mais belas visões trazem alívio a meus camaradas.

Fico, e os levo a perceber o melhor estratagema para a fuga.
Aos poucos, um a um eles se evadem,
seguindo a mesma trilha por entre os muros,
que percorri para longe desta fortaleza.


Integram a multidão lá fora ,que pouco a pouco trama a queda do tirano.

Eu, por mim, estou aliviado. Serei o último quando as portas e os muros forem derrubados e a libertação existir de fato para todo este povo.


Poderia ter me contentado com minha boa sorte de descobrir o caminho,
e deixar para trás todos eles.
Mas então, de que valeria a liberdade?


Assim, aqui me alimento dos mesmos restos e respiro o mesmo ar pestilento.
Dentro de mim, para aqueles quem me ouvem, falo da verdadeira
alegria de ter saboreado a liberdade, da esperança de reconquistá-la .


Os guardas nunca compreenderiam.
Os guardas...

Sonolentos os guardas não percebem...